"Bom dia", disse ela, virando pra mim, com um mau humor típico de quem ainda estava ensaiando o início de um dia de trabalho.
Não tenho muita paciência com mulher grosseira, então nem retribui o falso e gélido cumprimento. Limitei-me a entregar meu cartão e a informar o valor que deveria ser debitado.
Conveniência vazia, às 07:40 da manhã. Eu com sono e meio de ressaca em razão do leve porre tomado com Armand na noite passada. Ela de mau humor, agravado pela chegada de um primeiro cliente nada simpático.
"Lamento", disse a ela, ao receber de volta meu cartão e o recibo. "Lamenta o que?", ela me perguntou.
Então, deixando o recinto, respondi: "Lamento pelo seu mau humor logo no início do dia".
Foi aí que ela deu a brecha, dizendo: "Tenho meus motivos, mas ninguém se interessa."
Mais uma infeliz no mundo, conclui no momento. Apenas respondi: "Pois é...vai se acostumando..." e finalizei nosso breve e impessoal diálogo.
Vim no carro pensando que talvez tenha perdido mais uma chance de conhecer alguém. Apesar do mau humor latente da guria, não pude deixar de notar o corpo escultural e os longuíssimos cabelos loiros, do jeitinho que eu gosto.
Aquela poderia ser a mulher da minha vida, mas também poderia ser apenas mais uma vaca mal amada e oportunista, cheia de frases decoradas, que só precisa de um pouco do meu mel pra sair da fossa e depois me largar na deprê.
Na dúvida, prefiro não arriscar.